O fim do mundo, o nada e a canção que eu não fiz para Matilda

O fim do mundo deve ser o nada mais o silêncio mais a ausência. E nenhuma canção.

Quando Matilda foi embora o nada era tão intenso que eu o poderia tocar e o silêncio se fez tão profundo que se tornou até possível lhe ouvir. A ausência era tão densa que eu podia velá-la como quem vela um defunto na esperança de não precisar enterrá-lo nunca.

Era o fim do meu mundo.

Quando Matilda se foi dizem que eu perdi os sentidos. Porém, eu sentia que o meu sangue acelerava pelas veias querendo ser poesia, em louca cavalgada.

De Matilda? Lembro que sua presença era rósea e lisa, delicada qual uma pétala; sua ausência, purpúrea, áspera e espinhosa como o caule da roseira. Sua falta me umedecia os olhos e me secava a boca.

Matilda partiu em um navio. “La nave va “… Um cais, o caos, o nada.

E aqui estou em meio ao nada. Sem ter do que me afastar, despido do personagem com que buscava lhe agradar. Ouvindo suas canções sem ela a me explicar. Vou cantar como cantar, vou sentir o que sentir.

O nada que a ausência de Matilda trouxe não era o nada do Sartre, e sim o nada de mim. Um nada claro e simples entre o meio e o fim de uma extensa madrugada. Pensei só em você no nada de onde vim. Olhar o nada me sossegou a alma. Cegou-me a calma com que o nada chega ao fim.

Não restou sequer uma estrela azul nem o farfalhar das asas de uma fada, nem Excalibur cortava o ar, nem qualquer espada; nem Pégasus nem unicórnios. Nada de centauros, ciclopes, faunos, ninfas ou sereias. Nada de sonhos.

Nada.

Do nada vinha o seu cheiro, vinha o seu nome. O nada era toda a sua ausência na primeira madrugada, muito antes da partida e tanto depois da chegada. Aliás, todo o tempo era uma madrugada.

Foi então que eu perdi o entono e junto dele se foi o meu sono com tudo que me causara. Peguei o violão… Meus dedos, pela falta de sua pele, no braço do corpo perfeito buscaram dissonâncias, invadiram escalas, trastejaram cordas, inventaram acordes, mas eu, de concreto, nada… Nada fiz… Nem mesmo esta canção…

EU NÃO FIZ ESTA CANÇÃO

Quando Matilda foi embora

Meu olhar não se molhou

Eu não senti desconforto

Não me senti qual um morto

Que olha tudo e não vê

Quando Matilda partiu

Eu não toquei suas fotos

Eu não cheirei os lençóis

Eu não perdi minha voz

Eu não beijei seu batom

Quando Matilda se foi

Não me joguei aos seus pés

Eu não gemi abafado

Nem sussurrei ajoelhado

Que não era hora de ir

Quando Matilda sumiu

Eu não me desesperei

E não me lancei ao bar

Nem sequei o Old Parr

Eu não cantei Please Don’t Go

Quando Matilda se mandou

Eu não sujei o seu nome

Não maldisse o nosso lar

Os pratos  não fui quebrar

Nem as paredes soquei

Quando Matilda disse adeus

Não esbocei reação

Eu não, nem ai, nem aí

Não escrevi tal pieguice

Eu não fiz esta canção

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13 respostas a O fim do mundo, o nada e a canção que eu não fiz para Matilda

  1. Paulo Rosa diz:

    Maravilha, como sempre, poético, profundo, ardente. De pieguice nada, muito além do fim do mundo…

  2. Gabi diz:

    Muito showwwwwwwwwww… Quanta criatividade e inspiração, meu amigo!!! Amei!!! Você é uma daquelas pessoas, como diz Osvaldo Montenegro: “Que se encanta mais
    Com a rede que com o mar”

  3. olha ai esse é o cara!!,ele é o
    meu guri !! bjs te amo!!

  4. Renato Murailh diz:

    Pois é. . é bem bonito. Admiro pessoas super ocupadas, cheias de responsabilidades e ainda com tempo pra uns escritos de alto nível.
    Abraços e FELIZ NATAL

  5. Joyce diz:

    da beleza leveza humor recato ousadia poesia amor.. não sei do que gosto mais.
    matilda tem sorte.

  6. Tania T R Figueiredo diz:

    Lindos teus versos, Raul,como sempre. Parabéns.

  7. Luciana Farias diz:

    Tu, sempre!!!

  8. Luzia SantAnna diz:

    Parabéns, Raul! Sou tua fã. Adoro o que escreves.

    • Delcio M. Ribeiro diz:

      Meu prezado amigo: Marco Túlio Cícero, o grande orador romano, após avaliar os originais de um livro escrito por Júlio cesar, o grande general e imperador, seu amigo – e rival – enviou a este uma carta com seus comentários, a qual concluiu dizendo: “você, querendo oferecer material aos historiadores roubou destes a vontade de escrever e dos críticos retirou a coragem para realizar seu trabalho”. Pois bem, a cada vez que leio o que escreves fico com menos vontade de me aventurar nesse campo e sem nenhuma coragem de divulgar. A inspiração é profunda, o texto é leve e as palavras precisas. Tudo perfeito. Parabéns, grande abraço.

  9. Vitor Biasoli diz:

    Muito inspirado.
    Excelente o último verso.

  10. Nádia Ribas diz:

    Muito profundo,de nadie não tem nada,ela se foi mas deixou tanto de si que o nada se encheu de tudo. Continua escrevendo amigo,quando procuro um livro novo na livraria sempre me ocorre,putz que pena que o Raul Maxuel não lançou o dele ainda tipo Cinquenta tons de Raul ou algo parecido.Hehehe. Por mim, seria Best Seller de primeira!Obrigado pela generosidade de sem ônus, nos proporcionar de este bônus nestas leituras Facebookeanas. Abraço e Feliz 2013!

  11. Por acaso, não ficou sabendo como morreu a Matilda, eles merecem essas canções, parece que meu ex começou a morrer. Eles se lembram o que deixaram pra trás,, quando começam a ficar perto do fim. Linda crônica, linda canção. Sinto pena da Matilda.

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